segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Um doce vício parte IV


Leia aqui as primeiras partes.

Síndrome de abstinência é o conjunto de modificações orgânicas que se dão em razão da suspensão brusca do consumo de droga geradora de dependência física e psíquica. (Wikipédia).

Falta de sono e de apetite, crises de choro, mais vontade de beber e fumar, tédio e dores no peito. Essas foram as modificações que ocorreram no meu organismo por algumas semanas depois que decidi dar início ao meu tratamento de desintoxicação.

Por semanas, toda noite eu ficava várias horas refletindo sobre o que tinha dado errado e quando finalmente caia no sono, sonhava com ele. E quando eu acordava na manhã seguinte, aquela sensação ruim ainda estava lá. Já me apaixonei outras vezes, sabia que uma hora isso ia passar, eu só tinha que ser forte. Então saia de casa para ir trabalhar, usando um óculos escuros e um fone de ouvido no volume máximo. Pisando firme no chão como se ele estivesse embaixo dos meus pés e não pudesse mais me machucar.

Comecei a sair com outros caras, mas todos tinham o mesmo perfil dele. Inconscientemente eu estava tentando substituí-lo, já que eu não tinha ele, eu precisava pelo menos encontrar um analgégico para dor no peito.

Mas as tentativas foram fracassadas. A altura era a mesma, o cabelo caindo no rosto e a rebeldia também. O gosto musical idêntico. “Você foi no show do Arctic Monkeys que teve em SP?” – o cara me perguntou. “Fui sim” – respondi. “Que foda, queria ter ido, eles são muito bons”. – ele disse. “Nossa!” – falei olhando no relógio – “Preciso ir embora, vai fechar o metrô”.

Nenhum deles me fizeram sentir o que eu sentia por ele. Eu bebia e quando chegava em casa depois de ter ficado com alguém, eu chorava descontroladamente. Naquele momento eu era a música Back to Black da Amy “Me and my head high, and my tears dry, get on without my guy”  (Eu, chapada, e com as minhas lágrimas secas, sigo em frente sem o meu homem)

Apesar de saber que ele era imaturo demais e que ia optar pelo caminho mais fácil – que era deixar eu ir embora – eu ainda alimentava a esperança que ele ia lembrar de quando eu me maquiava na frente do espelho e ele ficava me observando sem piscar o olho. Então ia perceber que não veria mais aquela cena e corresse atrás de mim para implorar perdão e pedir que começássemos de novo. 

Alguns meses antes daquela mensagem que cortou nossos laços, uma amiga viu nas cartas de tarô que ele não era pra sempre, mas deveria ficar na minha vida como uma distração. Eu não dei ouvidos porque eu o queria pra sempre ou não o queria mais.

Eu não estava bem, tive uma crise de stress aguda no começo do ano, mexas do meu cabelo chegaram a cair e eu fiquei careca numa pequena parte no topo da cabeça. Tive que tomar anti-depressivo e repensar sobre o estilo de vida que eu estava levando. Apesar de viajar com frequência, eu estava sentindo muita falta de mochilar de verdade e estar longe de casa por meses ou talvez anos. 

Quando ele apareceu na minha vida, eu estava me recuperando dessa crise, e eu acabei depositando a esperança de melhora toda nele. E esse foi meu erro. Por isso eu não queria mais prolongar aquele vício, queria me curar logo.

Eu continuei forte, não voltei atrás, não falei mais com ele. Passaram, semanas, passou um mês, dois meses. Poderiam até checar o histórico do meu celular, eu não havia feito contato algum com ele. Eu estava limpa.

Até que, longe dos olhos vigilantes de todos que sabiam do meu vício, trancada no meu quarto, um dia eu estava ociosa na internet, procurei a página dele no Face, apesar de não sermos mais amigos, ainda consegui ver algumas coisas que estavam abertas. E ele tinha cortado o cabelo e deixado uma barbicha crescer. Que merda, como ele estava lindo!



Me senti como se eu estivesse literalmente internada numa clínica de reabilitação e conseguido drogas com um funcionário corrupto. Tremores tomaram conta do meu corpo e meu coração acelerou. A recaída foi tão forte que desbloqueei ele no Whats.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Um doce vício parte III

Leia aqui a parte I e II

As semanas seguintes que se arrastaram depois do nosso confinamento naquele quarto de hotel foram as piores.

Enquanto eu não parava de pensar em cada momento vivido ali e já ansiosa pelo próximo, ele parecia nem se importar. Ficou frio, distante, não respondia mais às minhas mensagens com a mesma frequência, me deixava falando e muito menos mandava um "bom dia" ou "boa noite". Eu me perguntava "Pra onde foi aquele cara que disse que era tonto por mim?"

Talvez eu tenha me deixado levar pelas palavras meigas dele e pela atenção que ele me deu, que não necessariamente significavam que iríamos viver um amor de filme de sessão da tarde. Eu realmente acreditei que eu estava vivendo algo recíproco, mas não estava.

Eu continuei cobrando quando ia ser nosso próximo encontro e as respostas que ele me dava eram como murros nos meus olhos quando as liam.

Parei de me importar, ou fingi que parei, e não o procurei mais. Mas ele dava um jeito de aparecer na minha vida, curtindo alguma coisa no meu Facebook ou comentando meus vídeos no YouTube. Eu cheguei a dizer com todas as letras "Se vc não percebeu, estou tentando desencanar de vc, será que vc pode colaborar?" e a resposta dele foi "Isso me deixa triste" seguido de um emoji de carinha triste. 

Quando morei nos Estados Unidos cuidei de um garotinho de 3 anos, quando eu dava bronca nele a resposta dele era "Isso me deixa triste". Foi ai que percebi que eu estava apaixonada por um cara imaturo que quando se via numa situação que ele não sabia o que fazer ele respondia exatamente a mesma coisa que um garotinho de 3 anos.

Outro feriado se aproximava e ele disse que viria pra SP e se eu queria "dar uma volta". "Talvez. Mais próximo da data a gente combina". Foi a minha resposta.

O feriado chegou, ele sumiu e só foi dar notícias dias depois. Então ele começou um joguinho de me mandar "Oi, td bem?" Ou mandar só uma mensagem chamando meu nome e depois desaparecer por dias.

Eu até tentei manter uma relação sem cobranças, sem ciúmes, sem expectativas, mas eu gostava demais dele pra conseguir fazer isso. Então cansei, fiquei puta, me senti uma palhaça. O que ele queria afinal? Àquela altura pra mim só tinha duas opções, das quais ele não queria escolher nenhuma delas: ficar comigo pra valer ou sumir da minha vida. 

Eu pensava nele desde da hora que eu acordava até a hora de dormir, eu não trabalhava direito, eu não olhava para os lados, fui viajar e ficava pensando que teria sido muito melhor se ele tivesse comigo, ia pra balada e não curtia, saia com amigos e achava um saco. Tudo parecia chato sem ele.

Eu não queria mais sentir aquilo. Não queria mais ser dependente daquela sensação que ele me fazia sentir. Não queria mais perder o foco.

Num dia de TPM mandei a seguinte mensagem em resposta de um “Oi!” que ele mandou "Por favor, não faça mais contato comigo. Vc foi a pior coisa que me aconteceu esse ano." 


Decidi que estava na hora de encarar uma desintoxicação e esquecê-lo. Então comecei uma sessão rehab. Deletei ele do meu Facebook, o bloquiei do Whatsapp e até o bani da página do meu blog. 

Naquela noite meu travesseiro absorveu minhas lágrimas sem reclamar do gosto amargo e salgado.


sábado, 21 de novembro de 2015

Um doce vício parte II


O silêncio entre a gente durou apenas uma semana, mas eu já sentia falta dele. Até no trabalho as pessoas perceberam a minha cara de azeda, parecia que meu corpo estava pedindo por aquela droga que eu não tinha mais.

Até que ele mandou uma mensagem quebrando o gelo “Se eu te mandar alguma coisa que não seja notícia minha, vc vai ler?” 

A combinação da abstinência daquele vício com a minha capacidade de perdoar rápido as pessoas, fez com que eu tivesse uma recaída. Respondi a sua mensagem carinhosamente e voltamos o contato.

Novamente aquela paixão descontrolada começou. Começamos a nos chamar de apelidos clichês como paixão, amor, meu lindo, minha linda, princesa e cada dia que passava eu ficava mais dependente e sentia mais necessidade de vê-lo.

"Estou te mandando mensagem bêbado, isso prova que sou seu" 

"Vem morar comigo?" 

"Vou até SP falar com seus pais e pedir vc em namoro" 

"I wanna be yours"

"Existem três tipos de amor, de Platão, Aristóteles e de Cristo (...)  por isso eu sei que te amo". 

Não estou exagerando, nem modificando nada, o conteúdo das mensagens que ele me mandava eram exatamente esses que vc acabou de ler. Foi mais rápido que a luz e sem perceber eu mergulhei de cabeça no jogo dele.

Ele dizia que nos veríamos em breve, mas esse breve nunca chegava. Apesar de ter perdoado ele pelo último ocorrido, meu orgulho não permitiria que eu fosse até a cidade dele de novo depois do que ele fez. Então, pra se redimir, eu impus que ele teria que vir até mim. Ele dizia que não tinha dinheiro para vir passar um fds comigo em SP, que não podia agora, mas pra eu ter paciência.

Apesar dessas alegações, ele vivia indo em festivais, shows e raves. Ou seja, dinheiro, tempo e disposição não eram os fatores que o impediam de chegar até mim.

Aí que começaram os problemas. De um lado uma mulher, formada, com emprego e cargo estáveis, viajada e com uma bagagem de vida imensa nas costas. Do outro, um moleque, universitário que não trabalhava, ainda descobrindo a vida. Eu fugi das cenas de novela mexicana, mas estava vivendo uma novela da Globo, e o que é pior, da mais juvenil de todas, Malhação.

Dois meses se passaram nesse impasse e finalmente ele veio me ver. Ele chegou em SP numa quinta-feira, ficou na casa de um amigo e me encontrou uma hora da tarde do sábado. Fizemos check-in num hotel e só saímos de lá para comer por volta das nove da noite.

Tinhamos um laptop tocando rock, bebida, cigarro e o corpo nu um do outro, no melhor estilo "Sexo, Drogas e Rock'n'roll". Eu respirei ele, eu senti ele, me alimentei dele, eu consumi cada pedaço do seu corpo. Ele entrou direto na minha corrente sanguínea, acelerou meus batimentos cardíacos, dilatou as minhas pupilas e me deu a sensação de prazer que eu tanto ansiava. 

“Minha nicotina” sussurrei no pé de seu ouvido, ele apenas sorriu. “Quando vamos nos ver de novo?” perguntei. “Nem fui embora e já está pensando na próxima” ele respondeu.

Fizemos check out, almoçamos e ele seguiu de volta para sua cidade. “Vê se não some” ele me disse na despedida. Me virei em silêncio e parti.

Por trás daquelas palavras percebi um pouco de desprezo. Eu esperei ansiosamente por dois meses para ficar apenas 24 horas ao lado daquela pessoa e ele não estava nem se importando se iríamos nos ver de novo algum dia. Fui pra casa carregando o seu cheiro no meu corpo, o seu gosto nos meus lábios e o toque das suas mãos no meu rosto. Fui embora satisfeita e abastecida daquela droga mas no fundo muito machucada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um doce vício parte I


"Aumento da pressão arterial, da freqüência respiratória e dos batimentos cardíacos, dilatação das pupilas, tremores e rubor, falta de apetite, concentração, memória e sono." (A química da Paixão - Revista Superinteressante) Parecem mas não são sintomas provocados por drogas, e sim pela paixão.


Lembro perfeitamente como me senti imediatamente atraída por ele. Mesmo o primeiro contato sendo pela internet, eu sabia que os feromônios eram compatíveis.   Mas não imaginava que um vício incontrolável começaria.

Nos conhecemos por causa de um show do Arctic Monkeys. Fui adicionada num grupo de Whatsapp de uma galera de várias partes do Brasil que estavam combinando de ir juntos no show que haveria em SP. E ele, que morava à três horas de distância de SP, estava nesse grupo também.

Logo nos tornamos amigos no Facebook e descobri que ele tinha namorada, que - inclusive - ia com ele no show. Então, eu evitava intimidades, mesmo assim, às vezes, ele dava umas indiretas que também me curtia.



No dia do show, fui sozinha e encontrei a galera do grupo - menos ele. Estávamos na fila do lado de fora, quando chegou uma mensagem de voz dele no grupo do Whatsapp dizendo “Só vejo a Mariangela em todo lugar”. Não sei o que ele tinha usado, mas ele já estava me vendo e eu nem tinha entrado no evento ainda.

Mesmo sabendo que ele estaria com alguém, eu queria vê-lo, eu estava muito curiosa pra saber porque ele me atraía tanto. Então tentei ligar, mandei mensagem de texto, ele até respondeu mas algo deu errado e ele não conseguiu nos encontrar.

O show acabou, o Arctic Monkeys seguiu com a sua turnê, cada um voltou para sua cidade natal e eu voltei pra casa sem conhecê-lo pessoalmente. Acabei desencanando.

Três meses depois, meu celular vibra, era uma mensagem dele. Dizendo que tinha visto meu vídeo no YouTube saltando de asa delta e que tinha acabado de saltar de parapente e assim uma conversa começou. No mesmo dia dei uma stalkiada na página dele no Facebook e confirmei as minhas suspeitas, ele tinha terminado o namoro.



Mais três meses se passaram, e outro show aconteceria em SP. Faltando duas semanas para o festival, eu perguntei se ele ia, e a resposta foi sim. Eu ainda não tinha ingresso e na verdade não tinha me decidido se ia ou não. Ele passou a me perguntar todos os dias se eu ia, se já tinha arrumado o ingresso e que queria muito ir nesse festival comigo. Com essa insistência, não preciso nem dizer qual foi a minha decisão, né?

No dia do show, cheguei na porta e comprei ingresso de um cara qualquer que até me colocou lá dentro sem pegar fila. Quando entrei, liguei pra ele e ele estava próximo a uma pick-up de DJ, cheguei por trás, toquei nele – "Oi" – e ele me deu um abraço como se já me conhecesse a tempos.

E quando o assunto acabou, ele virou pra mim e disse "quando vamos começar essa amizade?" eu o beijei. A conexão foi imediata. Nossos lábios se encaixavam perfeitamente, o abraço dele me confortava tão bem que eu queria ficar ali pra sempre. Eu estava certa quanto aos feromônios compatíveis.

Poucos dias depois, ele me convidou pra passar um final de semana na casa dele.

"A primeira coisa que quero fazer quando vc chegar é te dar um beijo na boca" essa foi a mensagem que ele me mandou no dia que eu aceitei o convite. E no final de semana seguinte eu estava num ônibus indo até a cidade que ele morava.

Ele foi me buscar na rodoviária. E na casa dele, uma lasanha - que ele fez - me esperava. E eu não sei nem cozinhar feijão (vergonha)! Ele também comprou uma tequila, porque eu havia comentado que gostava. E quando acordamos no dia seguinte, fez o café da manhã.

Não fomos pra nenhum lugar especial. Mas foi tudo maravilhoso. Quando voltei pra SP, eu tinha corações no lugar de olhos.

Nas semanas seguintes nosso contato se intensificou. Não parávamos de nos falar, e ficávamos lembrando do fds que passamos juntos. A sinceridade aumentava a cada mensagem "Estou com saudades do seu beijo", "quero te ver", "sou seu", "sou sua" e com direito a mensagens de voz bebados na madrugada. Nossa relação tinha até trilha sonora "I Wanna Be Yours" do Arctic Monkeys. Claro!



Eu estava completamente envolvida, viciada, não sei bem qual sentimento acontecia dentro de mim. Mas como o Justin Timberlake diz em uma música, eu não queria descer mais daquela nuvem que era amar ele.


Comecei a sentir os sintomas, era paixão!

Ele me convidou para uma festa que haveria em sua cidade. Eu aceitei o convite e ficamos a semana toda combinando e sonhando em nos ver novamente.

Mas faltando um dia para nosso reencontro tão esperado, ele desmarcou. O motivo? A sua ex descobriu que ele iria na festa acompanhado e entrou em contato com ele pedindo que ele não aparecesse com ninguém na frente dela – que também estaria na festa. E ele resolveu atender ao pedido da vaca ex.  

Eu não queria estar no mesmo espaço físico que a ex dele e correr o risco de vivenciar uma cena de novela mexicana. Mas mesmo entendendo a situação eu fiquei extremamente chateada, pensei em fingir que estava tudo bem, mas não aguentei e vomitei tudo que eu estava sentindo. 

Discutimos e brigamos "não quero mais saber notícia sua", essas foram minhas últimas palavras pelo inbox do Facebook e então paramos de nos falar. 




segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Um doce vício parte IV


Leia aqui as primeiras partes.

Síndrome de abstinência é o conjunto de modificações orgânicas que se dão em razão da suspensão brusca do consumo de droga geradora de dependência física e psíquica. (Wikipédia).

Falta de sono e de apetite, crises de choro, mais vontade de beber e fumar, tédio e dores no peito. Essas foram as modificações que ocorreram no meu organismo por algumas semanas depois que decidi dar início ao meu tratamento de desintoxicação.

Por semanas, toda noite eu ficava várias horas refletindo sobre o que tinha dado errado e quando finalmente caia no sono, sonhava com ele. E quando eu acordava na manhã seguinte, aquela sensação ruim ainda estava lá. Já me apaixonei outras vezes, sabia que uma hora isso ia passar, eu só tinha que ser forte. Então saia de casa para ir trabalhar, usando um óculos escuros e um fone de ouvido no volume máximo. Pisando firme no chão como se ele estivesse embaixo dos meus pés e não pudesse mais me machucar.

Comecei a sair com outros caras, mas todos tinham o mesmo perfil dele. Inconscientemente eu estava tentando substituí-lo, já que eu não tinha ele, eu precisava pelo menos encontrar um analgégico para dor no peito.

Mas as tentativas foram fracassadas. A altura era a mesma, o cabelo caindo no rosto e a rebeldia também. O gosto musical idêntico. “Você foi no show do Arctic Monkeys que teve em SP?” – o cara me perguntou. “Fui sim” – respondi. “Que foda, queria ter ido, eles são muito bons”. – ele disse. “Nossa!” – falei olhando no relógio – “Preciso ir embora, vai fechar o metrô”.

Nenhum deles me fizeram sentir o que eu sentia por ele. Eu bebia e quando chegava em casa depois de ter ficado com alguém, eu chorava descontroladamente. Naquele momento eu era a música Back to Black da Amy “Me and my head high, and my tears dry, get on without my guy”  (Eu, chapada, e com as minhas lágrimas secas, sigo em frente sem o meu homem)

Apesar de saber que ele era imaturo demais e que ia optar pelo caminho mais fácil – que era deixar eu ir embora – eu ainda alimentava a esperança que ele ia lembrar de quando eu me maquiava na frente do espelho e ele ficava me observando sem piscar o olho. Então ia perceber que não veria mais aquela cena e corresse atrás de mim para implorar perdão e pedir que começássemos de novo. 

Alguns meses antes daquela mensagem que cortou nossos laços, uma amiga viu nas cartas de tarô que ele não era pra sempre, mas deveria ficar na minha vida como uma distração. Eu não dei ouvidos porque eu o queria pra sempre ou não o queria mais.

Eu não estava bem, tive uma crise de stress aguda no começo do ano, mexas do meu cabelo chegaram a cair e eu fiquei careca numa pequena parte no topo da cabeça. Tive que tomar anti-depressivo e repensar sobre o estilo de vida que eu estava levando. Apesar de viajar com frequência, eu estava sentindo muita falta de mochilar de verdade e estar longe de casa por meses ou talvez anos. 

Quando ele apareceu na minha vida, eu estava me recuperando dessa crise, e eu acabei depositando a esperança de melhora toda nele. E esse foi meu erro. Por isso eu não queria mais prolongar aquele vício, queria me curar logo.

Eu continuei forte, não voltei atrás, não falei mais com ele. Passaram, semanas, passou um mês, dois meses. Poderiam até checar o histórico do meu celular, eu não havia feito contato algum com ele. Eu estava limpa.

Até que, longe dos olhos vigilantes de todos que sabiam do meu vício, trancada no meu quarto, um dia eu estava ociosa na internet, procurei a página dele no Face, apesar de não sermos mais amigos, ainda consegui ver algumas coisas que estavam abertas. E ele tinha cortado o cabelo e deixado uma barbicha crescer. Que merda, como ele estava lindo!



Me senti como se eu estivesse literalmente internada numa clínica de reabilitação e conseguido drogas com um funcionário corrupto. Tremores tomaram conta do meu corpo e meu coração acelerou. A recaída foi tão forte que desbloqueei ele no Whats.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Um doce vício parte III

Leia aqui a parte I e II

As semanas seguintes que se arrastaram depois do nosso confinamento naquele quarto de hotel foram as piores.

Enquanto eu não parava de pensar em cada momento vivido ali e já ansiosa pelo próximo, ele parecia nem se importar. Ficou frio, distante, não respondia mais às minhas mensagens com a mesma frequência, me deixava falando e muito menos mandava um "bom dia" ou "boa noite". Eu me perguntava "Pra onde foi aquele cara que disse que era tonto por mim?"

Talvez eu tenha me deixado levar pelas palavras meigas dele e pela atenção que ele me deu, que não necessariamente significavam que iríamos viver um amor de filme de sessão da tarde. Eu realmente acreditei que eu estava vivendo algo recíproco, mas não estava.

Eu continuei cobrando quando ia ser nosso próximo encontro e as respostas que ele me dava eram como murros nos meus olhos quando as liam.

Parei de me importar, ou fingi que parei, e não o procurei mais. Mas ele dava um jeito de aparecer na minha vida, curtindo alguma coisa no meu Facebook ou comentando meus vídeos no YouTube. Eu cheguei a dizer com todas as letras "Se vc não percebeu, estou tentando desencanar de vc, será que vc pode colaborar?" e a resposta dele foi "Isso me deixa triste" seguido de um emoji de carinha triste. 

Quando morei nos Estados Unidos cuidei de um garotinho de 3 anos, quando eu dava bronca nele a resposta dele era "Isso me deixa triste". Foi ai que percebi que eu estava apaixonada por um cara imaturo que quando se via numa situação que ele não sabia o que fazer ele respondia exatamente a mesma coisa que um garotinho de 3 anos.

Outro feriado se aproximava e ele disse que viria pra SP e se eu queria "dar uma volta". "Talvez. Mais próximo da data a gente combina". Foi a minha resposta.

O feriado chegou, ele sumiu e só foi dar notícias dias depois. Então ele começou um joguinho de me mandar "Oi, td bem?" Ou mandar só uma mensagem chamando meu nome e depois desaparecer por dias.

Eu até tentei manter uma relação sem cobranças, sem ciúmes, sem expectativas, mas eu gostava demais dele pra conseguir fazer isso. Então cansei, fiquei puta, me senti uma palhaça. O que ele queria afinal? Àquela altura pra mim só tinha duas opções, das quais ele não queria escolher nenhuma delas: ficar comigo pra valer ou sumir da minha vida. 

Eu pensava nele desde da hora que eu acordava até a hora de dormir, eu não trabalhava direito, eu não olhava para os lados, fui viajar e ficava pensando que teria sido muito melhor se ele tivesse comigo, ia pra balada e não curtia, saia com amigos e achava um saco. Tudo parecia chato sem ele.

Eu não queria mais sentir aquilo. Não queria mais ser dependente daquela sensação que ele me fazia sentir. Não queria mais perder o foco.

Num dia de TPM mandei a seguinte mensagem em resposta de um “Oi!” que ele mandou "Por favor, não faça mais contato comigo. Vc foi a pior coisa que me aconteceu esse ano." 


Decidi que estava na hora de encarar uma desintoxicação e esquecê-lo. Então comecei uma sessão rehab. Deletei ele do meu Facebook, o bloquiei do Whatsapp e até o bani da página do meu blog. 

Naquela noite meu travesseiro absorveu minhas lágrimas sem reclamar do gosto amargo e salgado.


sábado, 21 de novembro de 2015

Um doce vício parte II


O silêncio entre a gente durou apenas uma semana, mas eu já sentia falta dele. Até no trabalho as pessoas perceberam a minha cara de azeda, parecia que meu corpo estava pedindo por aquela droga que eu não tinha mais.

Até que ele mandou uma mensagem quebrando o gelo “Se eu te mandar alguma coisa que não seja notícia minha, vc vai ler?” 

A combinação da abstinência daquele vício com a minha capacidade de perdoar rápido as pessoas, fez com que eu tivesse uma recaída. Respondi a sua mensagem carinhosamente e voltamos o contato.

Novamente aquela paixão descontrolada começou. Começamos a nos chamar de apelidos clichês como paixão, amor, meu lindo, minha linda, princesa e cada dia que passava eu ficava mais dependente e sentia mais necessidade de vê-lo.

"Estou te mandando mensagem bêbado, isso prova que sou seu" 

"Vem morar comigo?" 

"Vou até SP falar com seus pais e pedir vc em namoro" 

"I wanna be yours"

"Existem três tipos de amor, de Platão, Aristóteles e de Cristo (...)  por isso eu sei que te amo". 

Não estou exagerando, nem modificando nada, o conteúdo das mensagens que ele me mandava eram exatamente esses que vc acabou de ler. Foi mais rápido que a luz e sem perceber eu mergulhei de cabeça no jogo dele.

Ele dizia que nos veríamos em breve, mas esse breve nunca chegava. Apesar de ter perdoado ele pelo último ocorrido, meu orgulho não permitiria que eu fosse até a cidade dele de novo depois do que ele fez. Então, pra se redimir, eu impus que ele teria que vir até mim. Ele dizia que não tinha dinheiro para vir passar um fds comigo em SP, que não podia agora, mas pra eu ter paciência.

Apesar dessas alegações, ele vivia indo em festivais, shows e raves. Ou seja, dinheiro, tempo e disposição não eram os fatores que o impediam de chegar até mim.

Aí que começaram os problemas. De um lado uma mulher, formada, com emprego e cargo estáveis, viajada e com uma bagagem de vida imensa nas costas. Do outro, um moleque, universitário que não trabalhava, ainda descobrindo a vida. Eu fugi das cenas de novela mexicana, mas estava vivendo uma novela da Globo, e o que é pior, da mais juvenil de todas, Malhação.

Dois meses se passaram nesse impasse e finalmente ele veio me ver. Ele chegou em SP numa quinta-feira, ficou na casa de um amigo e me encontrou uma hora da tarde do sábado. Fizemos check-in num hotel e só saímos de lá para comer por volta das nove da noite.

Tinhamos um laptop tocando rock, bebida, cigarro e o corpo nu um do outro, no melhor estilo "Sexo, Drogas e Rock'n'roll". Eu respirei ele, eu senti ele, me alimentei dele, eu consumi cada pedaço do seu corpo. Ele entrou direto na minha corrente sanguínea, acelerou meus batimentos cardíacos, dilatou as minhas pupilas e me deu a sensação de prazer que eu tanto ansiava. 

“Minha nicotina” sussurrei no pé de seu ouvido, ele apenas sorriu. “Quando vamos nos ver de novo?” perguntei. “Nem fui embora e já está pensando na próxima” ele respondeu.

Fizemos check out, almoçamos e ele seguiu de volta para sua cidade. “Vê se não some” ele me disse na despedida. Me virei em silêncio e parti.

Por trás daquelas palavras percebi um pouco de desprezo. Eu esperei ansiosamente por dois meses para ficar apenas 24 horas ao lado daquela pessoa e ele não estava nem se importando se iríamos nos ver de novo algum dia. Fui pra casa carregando o seu cheiro no meu corpo, o seu gosto nos meus lábios e o toque das suas mãos no meu rosto. Fui embora satisfeita e abastecida daquela droga mas no fundo muito machucada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um doce vício parte I


"Aumento da pressão arterial, da freqüência respiratória e dos batimentos cardíacos, dilatação das pupilas, tremores e rubor, falta de apetite, concentração, memória e sono." (A química da Paixão - Revista Superinteressante) Parecem mas não são sintomas provocados por drogas, e sim pela paixão.


Lembro perfeitamente como me senti imediatamente atraída por ele. Mesmo o primeiro contato sendo pela internet, eu sabia que os feromônios eram compatíveis.   Mas não imaginava que um vício incontrolável começaria.

Nos conhecemos por causa de um show do Arctic Monkeys. Fui adicionada num grupo de Whatsapp de uma galera de várias partes do Brasil que estavam combinando de ir juntos no show que haveria em SP. E ele, que morava à três horas de distância de SP, estava nesse grupo também.

Logo nos tornamos amigos no Facebook e descobri que ele tinha namorada, que - inclusive - ia com ele no show. Então, eu evitava intimidades, mesmo assim, às vezes, ele dava umas indiretas que também me curtia.



No dia do show, fui sozinha e encontrei a galera do grupo - menos ele. Estávamos na fila do lado de fora, quando chegou uma mensagem de voz dele no grupo do Whatsapp dizendo “Só vejo a Mariangela em todo lugar”. Não sei o que ele tinha usado, mas ele já estava me vendo e eu nem tinha entrado no evento ainda.

Mesmo sabendo que ele estaria com alguém, eu queria vê-lo, eu estava muito curiosa pra saber porque ele me atraía tanto. Então tentei ligar, mandei mensagem de texto, ele até respondeu mas algo deu errado e ele não conseguiu nos encontrar.

O show acabou, o Arctic Monkeys seguiu com a sua turnê, cada um voltou para sua cidade natal e eu voltei pra casa sem conhecê-lo pessoalmente. Acabei desencanando.

Três meses depois, meu celular vibra, era uma mensagem dele. Dizendo que tinha visto meu vídeo no YouTube saltando de asa delta e que tinha acabado de saltar de parapente e assim uma conversa começou. No mesmo dia dei uma stalkiada na página dele no Facebook e confirmei as minhas suspeitas, ele tinha terminado o namoro.



Mais três meses se passaram, e outro show aconteceria em SP. Faltando duas semanas para o festival, eu perguntei se ele ia, e a resposta foi sim. Eu ainda não tinha ingresso e na verdade não tinha me decidido se ia ou não. Ele passou a me perguntar todos os dias se eu ia, se já tinha arrumado o ingresso e que queria muito ir nesse festival comigo. Com essa insistência, não preciso nem dizer qual foi a minha decisão, né?

No dia do show, cheguei na porta e comprei ingresso de um cara qualquer que até me colocou lá dentro sem pegar fila. Quando entrei, liguei pra ele e ele estava próximo a uma pick-up de DJ, cheguei por trás, toquei nele – "Oi" – e ele me deu um abraço como se já me conhecesse a tempos.

E quando o assunto acabou, ele virou pra mim e disse "quando vamos começar essa amizade?" eu o beijei. A conexão foi imediata. Nossos lábios se encaixavam perfeitamente, o abraço dele me confortava tão bem que eu queria ficar ali pra sempre. Eu estava certa quanto aos feromônios compatíveis.

Poucos dias depois, ele me convidou pra passar um final de semana na casa dele.

"A primeira coisa que quero fazer quando vc chegar é te dar um beijo na boca" essa foi a mensagem que ele me mandou no dia que eu aceitei o convite. E no final de semana seguinte eu estava num ônibus indo até a cidade que ele morava.

Ele foi me buscar na rodoviária. E na casa dele, uma lasanha - que ele fez - me esperava. E eu não sei nem cozinhar feijão (vergonha)! Ele também comprou uma tequila, porque eu havia comentado que gostava. E quando acordamos no dia seguinte, fez o café da manhã.

Não fomos pra nenhum lugar especial. Mas foi tudo maravilhoso. Quando voltei pra SP, eu tinha corações no lugar de olhos.

Nas semanas seguintes nosso contato se intensificou. Não parávamos de nos falar, e ficávamos lembrando do fds que passamos juntos. A sinceridade aumentava a cada mensagem "Estou com saudades do seu beijo", "quero te ver", "sou seu", "sou sua" e com direito a mensagens de voz bebados na madrugada. Nossa relação tinha até trilha sonora "I Wanna Be Yours" do Arctic Monkeys. Claro!



Eu estava completamente envolvida, viciada, não sei bem qual sentimento acontecia dentro de mim. Mas como o Justin Timberlake diz em uma música, eu não queria descer mais daquela nuvem que era amar ele.


Comecei a sentir os sintomas, era paixão!

Ele me convidou para uma festa que haveria em sua cidade. Eu aceitei o convite e ficamos a semana toda combinando e sonhando em nos ver novamente.

Mas faltando um dia para nosso reencontro tão esperado, ele desmarcou. O motivo? A sua ex descobriu que ele iria na festa acompanhado e entrou em contato com ele pedindo que ele não aparecesse com ninguém na frente dela – que também estaria na festa. E ele resolveu atender ao pedido da vaca ex.  

Eu não queria estar no mesmo espaço físico que a ex dele e correr o risco de vivenciar uma cena de novela mexicana. Mas mesmo entendendo a situação eu fiquei extremamente chateada, pensei em fingir que estava tudo bem, mas não aguentei e vomitei tudo que eu estava sentindo. 

Discutimos e brigamos "não quero mais saber notícia sua", essas foram minhas últimas palavras pelo inbox do Facebook e então paramos de nos falar. 




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